Sobre Discotecas, Canaviais e Saudades

Quando menino eu sonhava em ir à “Discoteca do Brandão”, em Teotônio Vilela. Eu via os mais velhos irem e ficava me lamuriando por não ter a idade necessária para freqüentar aquele lugar mágico. Também havia a “Discoteca do Côca”. Todo mundo dizia que a do Brandão era melhor que a do Côca, pois era maior, tinha um jogo de luzes coloridas “massa” e um reggae mais dançante- foi passando defronte a do Brandão que escutei pela primeira vez Banda Reprise: paixão à primeira audição. Na Discoteca do Brandão dava muitas brigas, é verdade, mas isso não me tirava o desejo de subverter o que fora estabelecido e adentrar naquele espaço em que hoje funciona uma oficina de bicicletas. Se soubesse que a Discoteca estava com os seus dias contados, e que em breve viraria igreja evangélica, locadora de vídeos, espaço “mal-assombrado”, oficina, teria ido uma noite lá, e custasse o que custasse não sairia até escutar todo o cd da Banda Reprise. Mas a Discoteca fechou. E em pouco tempo a do Côca sumiu também. A agonia dos fins de semana foi silenciada, e o único som que se ouvia no centro da cidade era o do sino da Igreja da Praça, chamando o povo para lavar suas culpas na missa dominical.

Eu não entendia por que as duas Discotecas haviam fechado. Era triste ver aquelas espécies de templo da música silenciados. Eu, o seu distante admirador, fiquei estarrecido com o fato, e aqueles que as freqüentavam todo fim de semana, após mourejarem nos canaviais da região? É isso: sem aquelas badernas embaladas por Pato Banton, Banda Reprise, Cidade Negra, como suportar a vida dura do corte da cana, da “limpa de mato’, da irrigação? Foi um grande desserviço o desaparecimento daquelas casas tão benquistas.

O que noto hoje, a partir de um olhar mais aguçado sobre esses fatos, é que tanto “a do Brandão” quanto “a do Côca” foram vítimas de um processo muito comum em nossa realidade social: a migração. Eu não compreendia isso à época, mas depois pude perceber que o trabalho sazonal na agroindústria canavieira leva as pessoas- e muitos jovens, inclusive- a outras regiões em busca de trabalho, após a safra. É muito comum em regiões canavieiras casas comerciais só funcionarem em tempos de safra. A entresafra é período de carestia, conforme me disse certa vez um canavieiro da antiga Feira Nova, “é tempo de se apegar mais a Deus”. Não foi diferente com aquelas Discotecas: ainda funcionaram por um tempo considerável, seja na safra ou não, mas depois a situação tornou-se inviável, pois com muitos jovens indo para o Sudeste- de forma mais acentuada- e a economia local oscilando mais que o badalo do sino da Igreja da Praça (lembram?), o negócio tornou-se pouco promissor.

Hoje já é possível, pelo menos em Teotônio, uma discoteca sobreviver, seja no inverno ou no verão. (Se bem que esse termo foi colocado em desuso, sendo mais comum na hodiernidade usar expressões como “casas de shows”, “casas de festas”, etc.) Essa sobrevivência é possível porque surgiram oportunidades de empregos em outras usinas da região, e aumentando o número de pessoas da cidade trabalhando em outros estados, o dinheiro que estas enviam para os familiares ajuda a economia a manter certo equilíbrio- mas nem se compara à situação econômica da época da safra. Com a “precarização do precário”, para usar uma taxonomia do sociólogo Cícero Ferreira de Albuquerque, mais trabalhadores estão deixando as áreas canavieiras de Alagoas e indo tentar a vida em outros lugares, inclusive em grandes centros urbano-industriais. O dinheiro que enviam- deixando bem claro que não são todos que conseguem uma condição melhor de vida- torna alguns sonhos possíveis, mas já não mais o de manter aberta a Discoteca do Brandão, ou a do Côca, que tocando um som audível do Gerais às Inhumas, enchia o meu espírito de alegria. Saudades.

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